Era uma vez um reino longínquo e desparecido. Chamava-se Atlântida. Da sua origem e da sua existência nada se sabe. Platão refere-se a ele nos diálogos de Timeu e Crítias, baseado em escritos de Sólon. Tratar-se-ia de uma civilização existente para lá das colunas de Hércules (Estreito de Gibraltar), entretanto desparecida por ação de um castigo divino, ou de uma catástrofe natural, ou da conjugação de ambos.

A ação dramática de "Perdida no tempo", a peça que "os Serafins" levaram ao palco nos dias 3 e 10 de maio, assenta na reconstrução da vida nesse lugar mitológico, numa trama de conflitos, dos quais o principal é a disputa entre um imperador vagamente distraído e o seu ambicioso irmão que se julga com mais capacidade para governar. O cenário humano é o de um reino que parece aproximar-se da destruição, precisamente devido à inação desse imperador vaidoso e distraído e aos conflitos e intrigas que pululam pelo reino. Nada que não aconteça, sempre que o que está em jogo o PODER, esse íman poderosíssimo que leva os homens a perder a noção da realidade. Sendo este o foco da ação, a história fica composta com outras personagens que adensam a intriga: uma esposa pouco fiel, um filho bastante sentencioso, bailarinas da corte, uma sacerdotisa e um conselheiro, comerciantes, um cómico mercador africano, guerreiros e escravos, servas e meretrizes. A história termina com a perceção da catástrofe, talvez a mesma que deu origem ao desaparecimento da Atlântida original.

O exotismo da ação da peça sugeria, à partida, uma encenação a condizer. Pela primeira vez na ansiada Casa da Criatividade, a encenadora Lurdes Gual não se fez rogada. Nos Paços da Cultura as suas peças sofriam de limitações crónicas, tanto no que diz respeito à largura e à profundidade do espaço de representação, como ao próprio efeito visual captado pelos espetadores, a maior parte deles quase "em cima" do palco. Na casa da Criatividade a "outro galo cantou", a dança e a representação ganharam amplitude, não apenas por esse "efeito de distanciação" dos espetadores, mas porque a utilização do espaço cénico permitiu soluções impossíveis no palco dos Paços: uma cenografia colorida e multiforme, a utilização de sugestivos efeitos de luz e de coreografias vistosas, a condizer com a índole de um musical. Além disso, como confessou a encenadora, foi possível "realizar o sonho de fazer uma atriz voar", numa manobra que, sendo efetuada pela primeira vez naquele espaço, suscitava naturais receios. Convém aqui lembrar que a existência de mais recursos técnicos nem sempre facilita a missão do encenador: normalmente acontece o contrário. Mais recursos, mais desafios, maiores riscos. Mas valeu a pena!

Há muito trabalho, muita dedicação, muito "amor à arte" neste trabalho da minha colega Lurdes Gual. Para quem está na plateia, tudo parece fácil, tudo parece acontecer "por milagre", mas nós sabemos que nos bastidores de cada gesto que se faz, no interruptor de cada holofote que se acende, na tecla de cada música que irrompe, há um ror de previsões, de gestos repetidos, de receios que algo corra mal... Na apresentação a que assistimos, no dia 3 de maio, nada correu mal: os atores foram perfeitos e cada coisa aconteceu quando tinha que acontecer. "Os Serafins" e as equipas técnicas e de bombeiros, que com eles trabalharam, estão todos de parabéns. Cremos mesmo que, além das duas casas cheias, ainda encheriam mais algumas.

Os aplausos finais são a melhor prova de que esta "perdida" foi encontrada por um público que a mereceu.

Celestino Pinheiro

(As dez primeiras fotos deste slideshow foram gentilmente cedidas

pelo fotógrafo Rui Guilherme, do jornal Labor, a quem aqui apresentamos o nosso agradecimento.)

 

 

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