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Carlos Marques

O teatro é a vida. Não, não é, mas também é, e ainda bem. Convinha aqui antes um título pedante em latim, do género Homo sum humani a me nihil alienum puto, mas sejamos austeros na exibição intelectualóide.

Nem é preciso regressar aos gregos para caucionar qualquer argumento favorável. Desde sempre a Serafim Leite teve teatro. Desde os tempos da Escola Industrial e suas récitas, passando pela Secundária Número 1 e seus saraus, até aos tempos actuais com dois grupos de teatro. E se fossem 20, melhor seria.

Vejamos, afinal, o que é isso de teatro: dicção, entoação, registos de língua, adequação do discurso às circunstâncias e contexto, definição de personagens, pesquisa histórica de tempos e sociabilidades, códigos cinéticos, restritos e elaborados, adereços, dança, canto, cenários, grupo e suas envolvências, textos, estruturação do discurso, pragmática linguística, actos ilocutórios, esforço, dedicação, acção, esforço (uma aluna do 6º ano a quem foi sugerido entrar para o teatro disse logo NÃO que isso de decorar dava muito trabalho), convivência, aprendizagem, evolução, hermenêuticas várias, sentido de responsabilidade e comprometimento, leitura, criatividade, comunicação, desinibição, relação do corpo com o espaço, espírito de grupo, noções de lógica e causalidade, inteligências múltiplas, a pictórica, a cinestésica-corporal e a musical, integração, coreografias, ritmo de cena, textura de timbres vocais, sonoplastia, formação comportamental, improvisação, função poética em detrimento da informativa, motricidade, intertextualidades, .... et caetera, que o latim é muito bonito. E há lá melhor sala de aula? E há lá melhor componente lectiva? E há lá melhor coisa para obstar a acefalias de telemóveis e ascese intelectiva? Num país em que há planos para tudo, como o plano nacional de leitura e o plano nacional de cinema, não há um plano nacional do teatro? Que haja e bem, muitos, teatros, dos mais pelintras aos de maior fausto. E esse excelentíssimo festival de teatro? Se há quem desdenhe é porque, em analogia obtusa, se pode comparar a quem perora pedagogias balofas sobre bibliotecas...sem nunca ter lido um livro.

Que o teatro da vida (bela metáfora) continue até porque, um dia destes, quando menos a gente conta, estaremos moídos em pó e fumo ou cantina de minhocas. Amén. é a vida!

Carlos Marquesan teatro1

 

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