“Os Putos” foi o nome da peça que o grupo de teatro “Troupe” levou à cena no dia 21 de abril, como marca da sua presença no XII Festival de Teatro de São João da Madeira. O texto baseava-se na obra de Soeira Pereira Gomes “Esteiros”, publicada em 1941. O romance centra-se nas duras condições de vida e de sobrevivência das crianças que trabalhavam nos telhais da zona de Alhandra e é uma das primeiras obras do neorrealismo português.


A encenadora, professora Teresa Soares, optou por um cenário em que sobressaíam várias faixas de pano, caindo do alto do espaço cénico; grupos de cadeiras amontoadas marcavam o centro e a direita do palco: no primeiro deles, adivinhava-se um barco com o seu mastro; no lado esquerdo, uma pequena mesa sugeria um balcão de taberna, enquanto, nas laterais, a cortina do palco proporcionaria o surgimento de espaços domésticos, onde dois grupos de atores representariam cenas da vida de outras tantas famílias. Como a peça (e a obra que lhe deu origem) é estruturada pela passagem das estações do ano, foram utilizados efeitos visuais projetados nas telas, acompanhados, aqui e além, por efeitos sonoros e nevoeiro. Destaque aqui, também, para toda a equipa de apoio – cenografia, design gráfico, figurinistas, caraterização, sonoplastia, luminotecnia e assistência de produção – que conseguiu dar coerência ao espaço físico de uma obra que não foi originalmente escrita para teatro.
Como se disse anteriormente, a ação centra-se na vida de um grupo de crianças que trabalhavam nos esteiros (valas onde se recolhia o barro das fábricas de telha e tijolo) e, extensivamente, da vida das suas famílias e das personagens pertencentes aos grupos sociais abastados e opressores.
O elenco foi composto por um grupo de dezoito atrizes e atores - alunos, uma assistente operacional e um antigo aluno - na linha do que tem sido a sua constituição em peças anteriores do grupo. Os níveis etários variavam e adequaram-se, tanto quanto possível, às caraterísticas das próprias personagens. Neste caso, a escolha da obra inspiradora foi particularmente feliz, porque proporcionou a inclusão de um grupo de jovens atores, cujas caraterísticas físicas se adequavam plenamente às caraterísticas dos “putos” que constituem a personagem coletiva central da peça. Comecemos por eles: o mais notável da sua representação foi a capacidade de transmitirem a vivência de um autêntico bando de garotos, expostos a diferentes situações quotidianas, em que era necessário agir como agem as crianças, falando ao mesmo tempo, bulhando, protestando, exultando com as pequenas alegrias, ou sendo solidários nas situações mais difíceis. Houve muitos momentos da peça em que vimos à nossa frente os pequenos telhadores de Alhandra, eles mesmos. E isso foi o melhor e o mais extraordinário desta peça! Mas não esqueçamos o desempenho dos “adultos”, pela segurança e pela autenticidade que transmitiram às suas personagens. Pequenos e grandes, em conjunto, conseguiram fazer-nos viver as feiras, as cheias, a faina fluvial, a decadência do alcoolismo, a doença, a loucura, a mendicidade, o duro trabalho do telhal, a vida regalada dos senhores, todo o universo humano de “Esteiros”, de Soeiro Pereira Gomes.
Que mais dizer desta representação? Compará-la com as peças anteriores da “Troupe” não faria grande sentido, porque cada uma delas se revestiu de caraterísticas específicas e, por isso mesmo, incomparáveis. Apesar de ser um grupo com condicionalismos muito próprios – teatro escolar, sujeito a variações de composição e de estrutura etária – pode até acontecer que se deem “saltos atrás”. Mas, neste caso, a “Troupe” deu um enorme salto em frente, porque aproveitou a experiência acumulada pela grande maioria dos seus atores, integrou alguns novos e adaptou um texto que, também ele, se adaptava à matéria humana de que dispunha. E o resultado viu-se. Estes “putos” pareceram mesmo o “bando de pardais à solta” que a voz de Carlos do Carmo fez ecoar pela sala antes dos muitos e merecidos aplausos.
Apesar de todos os condicionalismos, apesar de a sala estar completamente cheia, e por isso mesmo, esta peça merecia ser vista por mais gente, no mesmo, ou em diferentes espaços. “Pelo teatro se faz educação”: num tempo em que o passado é tão ignorado, ou tão facilmente esquecido, valia a pena mostra estes “putos” a mais gente. Ficámos com saudades deles.

Texto: Celestino Pinheiro

Fotos: Curso Profissional Técnico de Audiovisuais

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"Troupe" - 2018 - "Os putos"

 

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