No princípio era uma sala de estar, onde dois avós, com um saber de experiência feito, uma neta curiosa e uma empregada metediça desfiavam memórias da terra onde nasceram: São João da Madeira. A neta precisava de fazer um trabalho para a escola, mas faltava-lhe matéria. Os avós ajudavam (os avós ajudam sempre)… e o palco também.


No palco, como por magia, as palavras da tranquila família tinham o poder de se transformar na realidade de pessoas, cenas e imagens do passado e do presente. De algum quelho ainda esconso, surgia a rapaziada das fábricas, sapateiros e chapeleiros, com as suas mãos calejadas e o seu linguajar operário, ou as esforçadas lavadeiras de trouxa à cabeça e conversa nunca terminada, personagens coletivas da nossa memória. As conversas primavam pelo ecletismo dos temas e da terra: a dureza do trabalho, futebóis, fitas de cinema, namoricos, rivalidades, canções da moda, monumentos… E com as conversas vinham também lugares, momentos e imagens, a Oliva,  a Empresa Nacional de Chapelaria e a Viarco, os chapéus das nossas fábricasos, (na cabeça do JR, o mauzão do Dallas, com dança a condizer), os vestidos de chita, ou o Festival da Canção, com quatro afinadas Madalenas Iglésias, o "cinema do Chico" e o "Imperador", com a serenata à chuva dançada a preceito, e, para não esquecer a moda, a internacional figura de Miguel Vieira. E não faltou a evocação da imprensa local e dos nossos escritores: Alão de Morais, o genealogista do século XVII, e os mais recentes, João da Silva Correia com o seu “Unhas Negras” e Serafim Leite, o jesuíta das sete partidas, a maior das quais foi S. João da Madeira, onde contribuiu decisivamente para a emancipação concelhia.

Foi uma bela e divertida lição de História Sanjoanense, a merecer ser representada em mais palcos, sobretudo nos palcos das escolas. Eu sei que a minha colega Maria de Lurdes Gual me vai rogar pragas por esta ideia, ela que teve pouco mais de um mês para pôr no palco esta gente a representar história com notável acerto. Mas, como diria algum sapateiro mais maroto, “o que é bonito é para se ver!” E não haverá muitas oportunidades de ver assim desfilar, ante os nossos olhos, uma História tão rica, representada de forma tão viva e dinâmica, cumprindo uma velha insígnia da arte teatral, “monet oblectando”, instruir divertindo.
Parabéns aos “Serafins”!

Celestino Pinheiro

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“Histórias da Memória”

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