O objectivo principal prende-se com a necessidade de alertar para a urgência de uma reversão filosófica, de uma revisão antropoética, usando como exemplo da pertinência de tal atitude, a actualidade das dimensões elencadas no juramento hipocrático.

Autora: Stella Azevedo

O espaço que a filosofia abre para esta discussão, aparentemente epistemológica, revela o privilégio que assume a atitude filosófica, ao predispor-se para a crítica e acesa discussão de interpelação do mundo, para a problematização dos patamares éticos que subsoleiam e apriopriam a acção humana.


Ao evidenciar o Juramento Hipocrático, abraçamos, enquanto seres que pensam e filosofam, tal urgência de ancorar uma fundamentação transversalizante, que ultrapasse as balizas dos relativismos a que, contemporaneamente, parece o homem estar confinado. 
O poder psicagógico do discurso, tão do agrado dos "antigos" gregos, já não se exemplifica com mera manobra publicitária, ou diversão das elites políticas, que se tira, findos os protocolos, mas sim, revestido da força que, no passado, alavancou fecundas tertúlias, que impulsionou verdadeiras revoluções, que, radicalmente, transformou a sociedade, o homem.
E é na confrontação de semântica que subjaz ao discurso hipocrático com as lacunas que hoje em dia se metastizam pelos cursos de medicina, que nos apercebemos da riqueza de tal herança, e cuja pertinência urge redescobrir e defender. O "Eu", em Hipócrates, é um "Outro-Eu", a partir do qual eu me conheço e reconheço.
Escolhemos viver num regime de velocidade onde a lentidão é suspeita. A dúvida, essência do espírito que questiona, tornou-se num luxo pretensioso e a verdade reduz-se na construção mecânica das aparências mais poderosas, senta-se à mesa a brindar com as construções mediáticas das estruturas mais fortes e bem-falantes. 
Urge o raiar de uma nova alvorada, pautada pela razão, que lute por uma racionalidade que aprendeu nos erros que ela própria cometeu, que funde um patamar de fundamentação práxio-moral, a partir do qual nos possamos desalienar desta insularidade existencial e solipsista. O homem tem de se encontrar consigo mesmo – encontro esse que passa pelos outros homens -, e isso significa que terá de integralmente se assumir, acabando com a imagem dispersa e inconexa, que de si próprio lhe oferece uma complicada epistemologia de saberes específicos, herméticos, parcelares. Só assim poderá o homem viver, isto é, projectar, ter esperança. 
O V Império, numa acertada imagem de Eduardo Abranches de Soveral, não é político. É moral… 
Ao revisitarmos os textos hipocráticos, ao mergulharmos na sua herança, ao evocarmos o seu juramento, conseguimos o vislumbre flagrante desse traço humanista, anti-reducionista, um constante recurso a uma hermenêutica do corpo e a uma visão holista deste, num cariz compreensivo e prudencial. Desde logo, se antevê que, na antecâmara do primeiro código de conduta médica que a humanidade construiu, pelas trave-mestras através das quais se edifica esse documento deontológico, reconhecemos, muito mais do que um conjunto de normas a que o médico se comprometerá durante o exercício da sua prática clínica.
É todo o erigir de um compromisso solene que o vincula a si mesmo, enquanto ser humano que trata outro ser humano, e que assim sendo, o consagra a si mesmo como vínculo incidível em relação à sua comunidade, faroleando-nos uma via onde podemos axiomizar uma alteridade poderosa, porque responsável, e responsável, porque fruto de uma racionalidade autónoma de um ser concreto, situado e pensante. Na verdade, pela tecedura hipocrática, embriagados com o seu profundo humanismo, seremos capazes de dissolver totalitarismos tecnocientíficos, denunciar preconceitos político-ideológico-económicos, libertar inteligências, formar consciências, sentir com sentido… 

Pedro Nuno Santos (aluno estagiário de Filosofia) | 2010-2011


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