A instalação artística — a intervenção — realizada para o Espaço Aberto, no âmbito do IX Festival de Teatro de São João da Madeira, é uma produção do Atelier de Desenho (alunos do 12.º B — Artes Visuais —, coordenados pelo professor Paulo Duarte) e adopta a temática desta 9.ª edição do festival — o "desenvolvimento" —, seguindo, assim, o mote declaraddo pela UE: 2015 — ano europeu do desenvolvimento.

Em momentos de crise económica global, como este que tem sido alegado, o paradigma da austeridade tem correspondido à perda de direitos, a incongruências de constitucionalidade... Enfim, tem correspondido a retrocessos sociais: Para que haja algum desenvolvimento económico, retrocede-se no desenvolvimento social, cultural (desemprego, despedimentos, cortes salariais e de pensões...). Ora, o desenvolvimento não se divide em dois: ou há, ou não há — e é por isso que o tal " desenvolvimento económico", afinal, manifesta-se através de uma dívida pública astronómica e crescente. A União Europeia (UE) tem, por um lado, evocado a austeridade enquanto solução, porém, essa solução tem-se apresentado mais como problema do que como solução. Surpreendentemente, a UE entrega-se, pela primeira vez, à "ação externa" e ao "papel da Europa no mundo", respondendo aos Objetivos do Milénio acordados em 2000, entre os quais, imagine-se, a erradicação da pobreza e o desenvolvimento sustentável!

O facto de esta edição do Festival de Teatro aflorar esta temática, foi uma oportunidade para sublimar a "Ideia" (o pensamento humanístico, a cultura) como o único suporte da civilização e do desenvolvimento civilizacional — não há outro: todos os "restantes" convergem neste... Uma oportunidade, afinal, para apresentar nove milhões de ordeiros degradados, a olhar fixamente numa única e mesma direção, e com os olhos vendados pelo comando de um cordel cuja energia grandiosa, não passa de uma bolinha, ela própria igualmente dependente do cordel. Há quem considere que são 10 milhões de ordeiros — 9 será o otimismo da intervenção...

Após este aparte semântico, importa registar que este é o terceiro ano de colaboração destes alunos com o Espaço Aberto, no âmbito do Festival de Teatro, e é o segundo ano em que intervêm, nesse mesmo âmbito, neste "vão de escada" da Casa da Cratividade, razão essa, pela qual, esse espaço honra o nome deste projeto de colaboração entre o Espaço Aberto e o Atelier de Desenho: "A arte no vão da escada". Institui-se o projeto, assim, no título da intervenção: A arte no vão da escada. As ideias crescem — as coisas ruem. O título está bem evidenciado no texto do Fernando Pessoa que integra esta intervenção — ela produz um "ataque" ao mundo das coisas materiais (não há outras), na convicção profunda de que a energia estruturante das civilizações não está nas coisas, mas nas ideias, e de que o "desenvolvimento económico" não é um fim em si mesmo, mas um meio para alacançar um "sem-fim": As ideias crescem, as coisas ruem; do engenho nascem coisas; com a arte as coisas deixam de ser coisas; a arte não se aplica, implica-se; temos ruínas romanas e ideias gregas...

A instalação permanecerá no espaço da Casa da Criatividade durante o Festival, entre 17 de abril e 3 de maio. Visitem a intervenção mas, sobretudo, tenham um bom IX Festival de Teatro e vejam tudo, sem "cordel".

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